Dr. Gorila.
João Corte
Brazil
"O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO"

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"O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO"

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A Existencia precede a Essência
Há um momento em que o homem percebe que nenhuma estrutura exterior será suficiente para absolvê-lo de existir. Nenhuma ordem, nenhuma tradição, nenhuma promessa de sentido prévio poderá responder definitivamente àquilo que ele deve ser. E é nesse ponto que começa a angústia sartreana: não como simples tristeza, mas como consciência brutal de que somos responsáveis por aquilo que fazemos de nós mesmos.

Sartre compreende a existência como um escândalo sem fundamento anterior. Não nascemos contendo uma essência pronta, uma finalidade escrita, uma forma acabada de ser. Existimos primeiro, e somente depois tentamos nos definir. O homem não é uma realidade concluída; é uma falta, uma abertura, uma possibilidade permanente. E justamente por isso nunca repousa inteiramente em si mesmo. Está sempre projetado para além do que já é, sempre condenado a escolher aquilo que ainda poderá tornar-se.

A liberdade, então, deixa de parecer uma bênção. Ela se torna um peso.
Ser livre significa não poder transferir integralmente a responsabilidade da própria existência a ninguém. Podemos culpar o passado, as circunstâncias, os outros, a sociedade, o acaso, e muitas dessas forças de fato nos condicionam; mas condicionamento não é destino absoluto. Em algum nível, permanece a terrível necessidade de responder ao que fizeram de nós. É nesse espaço mínimo, às vezes quase esmagado pelas circunstâncias, que a liberdade continua existindo.

Por isso Sartre afirma que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não escolheu nascer. Condenado, porque não escolheu possuir consciência. Condenado, porque até a recusa de escolher já é uma escolha. Não há neutralidade diante da própria existência.

Talvez uma das maiores tentações humanas seja fugir desse peso. Fingimos que somos apenas aquilo que esperam de nós. Transformamos hábitos em identidade, funções em essência, fracassos em destino, traumas em definição. Dizemos “eu sou assim” quando, muitas vezes, queremos apenas dizer “não quero suportar o risco de me tornar outra coisa”.

Essa fuga é o terreno da má-fé. A má-fé não é simplesmente mentir. É mentir a si mesmo para escapar da própria liberdade. É fingir que somos objetos fixos, quando na verdade somos seres sempre incompletos. É tentar transformar a própria existência em algo sólido porque o vazio da possibilidade é assustador demais.

O problema é que nenhuma máscara dura para sempre. Em algum momento, toda justificativa começa a ruir. Os papéis sociais se tornam insuficientes. As certezas perdem a força. As respostas herdadas deixam de convencer. E então sobra apenas a consciência diante de si mesma.
Esse talvez seja o encontro mais violento que alguém possa ter.

Porque perceber a própria liberdade significa perceber também tudo aquilo que poderia ter sido diferente. Cada escolha fecha mundos. Cada silêncio produz consequências. Cada renúncia cria uma forma de existência. E não existe uma segunda vida na qual possamos testar as alternativas abandonadas.

Vivemos sem ensaio. Escolhemos sem conhecer completamente o resultado. E depois somos obrigados a carregar aquilo que nossas escolhas fizeram de nós. A angústia nasce exatamente daí: da consciência de que nossas decisões não possuem garantia metafísica. Não existe uma voz absoluta confirmando que estamos fazendo o correto. Escolhemos dentro da incerteza, e somente depois descobrimos o peso de nossas escolhas.

Ainda assim, talvez seja justamente nisso que exista alguma dignidade. Se não existe uma essência anterior determinando aquilo que devemos ser, então também não existe uma prisão metafísica definitiva dizendo aquilo que jamais poderemos ser. Enquanto existimos, permanecemos projeto.
Permanecemos possibilidade. Permanecemos responsáveis.

E talvez a pergunta mais difícil não seja “qual é o sentido da vida?”, porque essa pergunta ainda espera que alguém nos entregue uma resposta pronta. A pergunta verdadeiramente sartreana seria outra: o que farei com o fato de que estou vivo, sabendo que nenhuma resposta poderá viver essa existência por mim?

Talvez seja isso que torna a condição humana tão insuportavelmente pesada. Não somos apenas seres que existem. Somos seres que sabem que existem. E, sabendo disso, somos obrigados a decidir, continuamente, o que essa existência significará. :shardofelettro:

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Sep 5 @ 9:14pm 
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