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C. Aquino   Brazil
 
 
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Review Showcase
Nos primeiros dez minutos de jogo, há uma ruptura brutal com o primeiro Mass Effect. De imediato, os desenvolvedores da Bioware sinalizavam que esta rota seria diferente. Não apenas as mecânicas foram alteradas, mas também o tom da narrativa. Como um messias renascido, Shepard se deixa cercar pelos rejeitados do sistema, caçadores, bandidos, terroristas, assassinos, justiceiros, uma problemática reunião de apóstolos que irá segui-lo até o inferno ou a redenção.

Apesar da jogabilidade simplificada, que abandona diversos elementos de administração de recursos mal-implementados no primeiro jogo. Apesar das perguntas mal-respondidas. Apesar das práticas comerciais questionáveis. Nada disso ofusca o brilho de uma jornada épica, que começa em morte e termina em sacrifício.

A grandeza de Mass Effect 2 reside no âmago da experiência humana. Sagas épicas de heróis se lançando rumo ao desconhecido para derrotar inimigos divinos existem desde o princípio dos tempos. Shepard entra neste hall de lendas ao se apropriar de tantos elementos recursivos de milênios, reciclá-los e moldá-los para uma audiência do século XXI. Neste sentido, a Bioware bebe do mesmo cálice que George Lucas uma vez consumiu e recria o mito do herói das estrelas. Temos o renascimento, a missão suicida, a convocação de seus novos argonautas, tragédia, romance, discursos de incentivo, um oponente de indiscutível maldade e um monstro final abominável que cospe no próprio sentido da Criação do Homem.

Exagero? Mitologia e cultura pop sempre andaram de braços dados. A mesma Odisseia de Homero, hoje estudada em cursos de faculdade, uma vez foi um poema cantado para o povo. E não se engane: os mesmos componentes desta fórmula serão misturados novamente para gerar novas sagas, seja no cinema, na literatura, nos jogos ou em qualquer outro lugar onde a narrativa exista. Precisamos de Heróis, de contos que nos movam para frente, que nos provem que é possível triunfar contra obstáculos aparentemente insuperáveis, que lutar, às vezes, se faz preciso.

Mas não havia isto no primeiro jogo da franquia? Sim. E não. Enquanto Mass Effect nos trouxe uma desabalada corrida contra o tempo e contra um inimigo palpável, aqui nós temos uma trama que não tem pressa para se desenrolar, que se preocupa com cada um de seus participantes e que traz um oponente de que nada se sabe. Enquanto o primeiro jogo é carregado do otimismo clássico da space opera, de um sentimento palpável de que "iremos conseguir", o segundo é mergulhado na tragicidade da sombra perpétua da "missão derradeira". Talvez não consigamos a vitória, talvez alguns de nós não voltem. É esta certeza do primeiro jogo que torna tão chocante os momentos em que alguém morre. É esta incerteza do segundo jogo que torna tão aflitivo seu final.

Penso, inclusive, que a conclusão perfeita da série seria o sacrifício. Como doze condenados ou sete samurais, os integrantes do exército de Shepard tombariam um a um, catapultando o tom épico para níveis ainda mais dramáticos. Ao final de tudo, o próprio Shepard faria seu último suspiro em nome do que acredita, fechando o ciclo de renascimento e morte. Heróis são feitos para triunfar e sumir. Mas, com a possibilidade de um Mass Effect 3 no horizonte, a Bioware não mataria sua galinha dos ovos de ouro antes da hora. É até possível obter este final, mas por negligência do jogador e não por determinação de seus criadores, além de não ser considerado o final canônico.
Crônicas

A grandeza de Mass Effect 2 reside na superfície da experiência humana. Assim como um Deus Ex, é preciso observar este jogo com olhos atentos. Há histórias nas entrelinhas, há humanidade nos alienígenas, há sentimentos em conversas que flutuam no ar. Cada pequeno detalhe adiciona mais um tijolo na sólida construção de uma realidade plausível. A Bioware consegue a proeza de fazer com que você se importe com um par de engenheiros na parte mais baixa de sua espaçonave, que você ouça o cansaço na voz de uma policial Asari, que você reveja seus conceitos prévios sobre personagens que julgava já ter entendido, que você ria de um Volus chapado de drogas ilícitas ou sinta piedade de um velho Krogan que serve de amigo/troféu de uma ambígua chefe do crime. Riso, tristeza, raiva e até um número musical protagonizado pelo mais improvável dos aliados de Shepard.

Ao contrário da maioria dos jogos de sua geração, o mundo palpável de Mass Effect 2 reage a você. Não ainda da forma que eu tanto sonho, mas da melhor maneira aplicada atualmente. O jogo não se contenta em importar sua aparência da aventura anterior, mas também suas decisões e altera o fluxo de certas partes da história de acordo com seu passado. Ações ou inações praticadas desta vez voltam para assombrá-lo em forma de diálogos ou mensagens eletrônicas. Shepard é cercado por uma bem-sucedida ilusão de pertencimento. Seus troféus não são apenas aqueles guardados em seu quarto virtual ou aquelas flâmulas distribuídas por um sistema que insiste em quebrar a imersão, mas também estes microcontos de triunfo ou perda, pequenas marcas de sua passagem pelo universo. E pensar que toda esta bola de neve de consequências irá explodir no terceiro jogo e ser descartada com leviandade, para desgosto de muitos...

Ao visitar o submundo do glorioso universo de Mass Effect, este segundo capítulo oferece um cenário que é um contraponto à utopia vibrante vista anteriormente. No lugar das promissoras colônias, vemos os piores antros onde o sonho de civilização fracassou. No lugar da radiante Citadel, um asteróide sem disfarces onde crime e hedonismo caminham juntos, onde o abismo social se estabeleceu e mercenários lutam pela supremacia. Até mesmo a organizada Illos é uma fachada para negócios escusos e escravidão camuflada com eufemismos legais.

A atmosfera destes lugares serve de moldura para os dilemas dos aliados do herói. Se Shepard é uma folha em branco que o jogador sopra na direção que deseja, o mesmo não se pode dizer daqueles que o acompanham. Não há um único deles que não tenha sido tocado pela tragédia, em sua maioria, problemas envolvendo assuntos de família. Não importam o avanço tecnológico ou os horrores que se escondem no lado escuro da galáxia, o conflito entre pais e filhos continuará atormentando os seres conscientes, independente da cor e da textura de sua pele. Enquanto a Bioware navega pela falta de criatividade durante as missões de recrutamento, basicamente resumidas em entrar-matar-recrutar, o verdadeiro drama começa nas chamadas missões de lealdade.

Como fábulas contidas dentro da narrativa maior, essas missões foram feitas para testar a opinião do jogador sobre temas pesados: perdão, vingança, justiça, genocídio, dever, família. Não tenho o que esconder: fiquei sem reação durante a missão de Mordin e já não sabia mais se queria ou não sua lealdade. Falhei com Thane e me senti responsável pelo seu desmoronamento emocional. Mass Effect 2 tem o raro efeito de fazer com que você se importe com suas figuras virtuais, um novo acerto dos mesmos criadores de Baldur's Gate 2.
Epílogo

Shepard sobrevive a sua jornada. Não sem carregar sua cota de feridas. Seu triunfo é passageiro e a última cena do jogo deixa claro que a batalha final ainda está por chegar. Não importa mais como seus escribas irão concluir sua epopéia, o ápice está aqui.

Originalmente publicado em: http://blog.retinadesgastada.com.br/2013/02/cavalgada-das-valquirias.html
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SrDeath Oct 15, 2020 @ 7:26pm 
Boa Retina, seu site é maravilhoso! Sempre quando tenho tempo passo horas lá lendo seu conteúdo... Sucesso! Visitem o blog do Retina, é magnifico! :47_thumb_up:
Daиi™ Jul 31, 2020 @ 2:27am 
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